sábado, 27 de outubro de 2007

Bertolt Brecht (7) - Se os Tubarões Fossem Homens

Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com os peixes pequenos.
Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar para os peixes pequenos, com todos os tipos de alimentos, tanto vegetais, como animais.
Eles cuidariam de que as caixas tivessem água sempre renovada e adoptariam todas as providências sanitárias se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana: imediatamente colocariam uma ligadura a fim de que ele não morresse antes do tempo.
Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam de vez em quando uma festa aquática, pois os peixes alegres sabem melhor do que os tristonhos.
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Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas.
Nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões.
Eles aprenderiam, por exemplo, a usar a geografia para encontrarem os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí.
A aula principal seria naturalmente a da formação moral dos peixinhos.
Eles seriam ensinados de que o acto mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando estes dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos.
Meter-se-ia na cabeça dos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo o mais, os peixinhos deveriam guardar-se de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E cada peixinho denunciaria imediatamente aos tubarões aquele de entre eles que manifestasse essas inclinações.
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Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos.
Eles ensinariam aos peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões, existem diferenças gigantescas.
Eles explicariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que se entendam uns com os outros.
Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua muda seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.
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Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas goelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as goelas dos tubarões.
A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes, e com a orquestra à frente, entrariam em massa para as goelas dos tubarões possuídos dos mais agradáveis pensamentos.
Também haveria uma religião ali. Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião.
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E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.
Além disso, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos. Alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.
Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusivamente comer os menores, e isso seria muito agradável aos tubarões, pois estes obteriam assim, constantemente, maiores bocados para devorar.
E os peixinhos maiores que detivessem os cargos zelariam pela ordem entre os peixinhos, para que estes pudessem vir a ser professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante.
Curto e grosso, só então haveria civilização no mar - se os tubarões fossem homens.
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(Bertolt Brecht)

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