terça-feira, 4 de setembro de 2007

Recadinhos do Padre António Vieira (1) - Os Impostos


“A costela de que se havia de formar Eva, tirou-a Deus a Adão dormindo e não acordado, para mostrar quão dificultosamente se tira aos homens, e com quanta suavidade se deve tirar, ainda o que é para seu proveito.

Da criação de Eva dependia não menos do que a conservação e propagação do género humano: mas repugna tanto aos homens deixar arrancar de si aquilo que se lhes tem convertido em carne e sangue, ainda que seja para bem da sua casa e de seus filhos, que por isso traçou Deus tirar a costela a Adão, não acordado, senão dormindo; adormeceu-lhe os sentidos, para lhe escusar o sentimento.
Com tanta suavidade como isto se há-de tirar aos homens o que é necessário para sua conservação.

Se é necessário para a conservação da Pátria, tire-se a carne, tire-se o sangue, tirem-se os ossos, que assim é razão que seja; mas tire-se com tal modo, com tal indústria, com tal suavidade, que os homens não o sintam, nem quase o vejam.

Deus tirou a costela a Adão, mas ele não o viu nem o sentiu. E, se o soube, foi por revelação.
Assim aconteceu aos bem governados vassalos do imperador Teodorico, dos quais por grande glória sua dizia ele:
Eu sei que há tributos, porque vejo as minhas rendas acrescentadas; vós não sabeis se os há, porque não sentis as vossas diminuídas. Tão ásperos podem ser os remédios, que seja menos feia a morte que a saúde. Que me importa a mim sarar do remédio, se hei-de morrer do tormento? (…)

(…) O maior jugo de um reino, a mais pesada carga de uma república são os imoderados tributos. Se queremos que sejam leves, se queremos que sejam suaves, repartam-se por todos.
Não há tributo mais pesado do que a morte, e contudo todos o pagam, e ninguém se queixa, porque é tributo de todos.
Se uns homens morressem e outros não, quem levaria em paciência esta rigorosa pensão da imortalidade? Mas a mesma razão que a estende, a facilita; e porque não há privilegiados, não há queixosos."

António Vieira nasceu em Lisboa (1608) e morreu na Baía, Brasil, em 1697. Pertenceu à Companhia de Jesus e tornou-se conhecido e famoso como orador sagrado de extraordinário talento. Foi missionário no Brasil, onde utilizou o seu génio oratório em defesa dos índios e em apoio aos exércitos portugueses que ali se batiam. Incomodado pela Inquisição, viu-se admirado e protegido por reis e pelo Papa. Salientam-se no seu espólio literário os Sermões e as Cartas.

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