quinta-feira, 6 de setembro de 2007

"Enterrem o Meu Coração na Curva do Rio" - A Palavra dos Índios (2)


(Continuação de 2 de Setembro de 2007)


“O meu povo nunca usou um arco ou disparou uma arma de fogo contra os brancos. Houve problemas na fronteira entre nós, e os meus jovens dançaram a dança da guerra.
Mas não fomos nós que começámos.
Foram vocês que enviaram o primeiro soldado, e nós mandámos o segundo.
Há dois anos atrás vim para esta estrada, seguindo o búfalo, para que as minhas mulheres e os meus filhos pudessem ficar com as faces cheias e os corpos aquecidos.
Mas os soldados dispararam contra nós e, desde então, houve um barulho como o de uma tempestade e ficámos sem saber que caminho tomar.
Também não podemos ficar a chorar sozinhos, sempre.
Os soldados de azul e os utes vieram de noite, quando estava escuro e sossegado, e queimaram as nossas tendas como fogueiras. Em vez de perseguirem a caça, mataram os meus bravos e os guerreiros da tribo cortaram os cabelos pelos mortos.
Foi assim no Texas.
Fizeram a tristeza chegar aos nossos acampamentos e nós investimos como os búfalos quando as suas fêmeas são atacadas.
Quando os encontrámos, matámo-los e os seus escalpes pendem das nossas tendas. Os comanches não são fracos e cegos, como os cachorrinhos de sete sonos de idade. São fortes e perspicazes, como cavalos adultos.
Os brancos choraram e as nossas mulheres riram.”
[Parra-Wa-Samen (Dez Ursos), dos Comanches]

“Embora me tenham feito mal, ainda tenho esperanças.
Não fiquei com dois corações…
Agora encontramo-nos outra vez para fazer a paz. A minha vergonha é tão grande como a terra, embora eu vá fazer o que os meus amigos aconselham.
Antes, eu pensava que era o único homem que insistia em ser amigo dos brancos.
Mas, desde que eles vieram e acabaram com as nossas tendas, cavalos e tudo o mais, é difícil para mim acreditar ainda neles.”
[Motavato (Chaleira Preta), dos Cheyennes do Sul]

“Não quero deixar nunca este território.
Todos os meus parentes jazem neste solo e, quando eu me desfizer, quero desfazer-me aqui.”
[Shunkaha Napin (Colar de Lobo), dos Sioux]

“Não quero correr mais pelas montanhas.
Quero fazer um grande tratado.
Manterei a minha palavra até que as pedras derretam…
Deus fez o homem branco e Deus fez o apache, e o apache tem tanto direito ao território como o homem branco.
Quero fazer um tratado que dure, para que ambos possam viajar pelo território e não haja transtornos.”
(Delshay, dos Apaches Tonto)


“De quem foi a voz que primeiro soou nesta terra?
Foi a voz do povo vermelho, que só tinha arcos e flechas…
Eu não quis, nem pedi, o que fizeram à minha terra, os brancos a percorrerem a minha terra.
Sempre que o homem branco vem ao meu território, deixa um trilho de sangue atrás dele…
Tenho duas montanhas neste território - as Black Hills e a Big Horn.
Quero que o Pai Grande não faça estradas através delas.
Disse estas coisas três vezes.
Agora venho dizê-las pela quarta vez.”
(Nuvem Vermelha, dos Sioux Oglala)


“Mas há coisas que vocês me disseram e de que eu não gosto. Não são doces como açúcar, mas amargas como cabaças.
Disseram que desejavam colocar-nos numa reserva, construir-nos casas e fazer-nos tendas para curar.
Não quero nada disso.
Nasci na pradaria, onde o vento sopra livre e não existe nada que interrompa a luz do sol.
Nasci onde não havia cercas, onde tudo respirava livremente.
Quero morrer ali, não dentro de paredes.
Conheço cada corrente e cada bosque entre o Rio Grande e o Arkansas. Cacei e vivi nesse território. Vivi como os meus pais, antes de mim, e, como eles, vivi feliz.
Quando estive em Washington, o Grande Pai Branco disse-me que toda a terra comanche era nossa e que ninguém deveria impedir-nos de morar ali.
Então, porque é que nos pedem para deixar os rios, o sol e o vento, para irmos morar em casas?
Não nos peçam para trocarmos o búfalo pelos carneiros. Os jovens ouviram falar disso e ficaram tristes e furiosos.
Não falem mais disso…
Se os texanos se mantivessem fora do meu território, haveria paz. Mas o lugar em que vocês dizem que devemos viver é pequeno de mais.
Os texanos tomaram os lugares onde a erva cresce mais e a madeira é melhor.
Se nós os conservássemos, poderíamos fazer as coisas que nos pedem.
Mas é tarde de mais, os brancos têm o território que amávamos e já só queremos vaguear pela pradaria até morrermos.”
[Parra-Wa-Samen (Dez Ursos), dos Comanches]

(Continua)

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