domingo, 2 de setembro de 2007

"Enterrem o Meu Coração na Curva do Rio" - A Palavra dos Índios (1)


Em 1970, Dee Alexander Brown publicou nos Estados Unidos um livro que de imediato se transformaria num best-seller (57 semanas de permanência na lista). A obra tinha o título Bury my Heart at Wounded Knee (An Indian History of the American West) e evocava, na perspectiva e nos relatos dos Índios, uma parte da história do território entre 1865 e 1890.
O livro foi posteriormente editado no Brasil (co-edição do Centro do Livro Brasileiro e das Edições Melhoramentos, 1973), com o título Enterrem meu Coração na Curva do Rio - Uma História Índia do Oeste Americano, e foi extraordinariamente bem recebido pelo público e pela crítica. Dois apontamentos da imprensa do tempo:

Luís Carlos Lisboa (Jornal da Tarde) - “ Um depoimento comovente sobre a decadência e o fim de um povo cheio de dignidade, de amor pela natureza e de boa fé.”
Élio Gaspari (Veja) - “Além de oferecer ao leitor minuciosas descrições de tratados hipócritas e massacres desnecessários, inclui a sensação de que, durante muito tempo, muita gente foi enganada de uma maneira tola nos livros e nos cinemas onde Gary Cooper, fulgurante e indómito, salvava a mocinha das mãos de selvagens comanches, sioux, cheyennes ou santees.”

Recolheram-se na Torre alguns dos depoimentos contidos nesta obra. Pertencem, todos, aos primeiros americanos, esses Índios apanhados desprevenidos pela invasão, que viam desmoronar-se violentamente, com aterradora celeridade, e não obstante a corajosa bravura que muitos empregaram na derradeira resistência, o mundo em que tinham nascido e em que haviam criado uma cultura própria e elaborada.
Amavam a sua terra e por isso a defenderam sempre que lhes foi possível. Quando não foi, submeteram-se a tratados escorregadios - e acreditaram.
Não bastou.
Pensa-se na Torre que quaisquer comentários a estas transcrições seriam, no mínimo, supérfluos.

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De um Tratado de 1868:
Nenhuma pessoa ou pessoas brancas poderão colonizar ou ocupar qualquer porção do território ou, sem consentimento dos índios, passar pelo mesmo.

A palavra dos Índios:


“Fizeram-nos muitas promessas, mais do que me posso lembrar.
Mas eles nunca as cumpriram, excepto uma:
prometeram tomar a nossa terra e tomaram-na.” (Nuvem Vermelha, dos Sioux Oglala)

“Soube que pretendem colocar-nos numa reserva perto das montanhas.
Não quero ficar nela.
Gosto de vaguear pelas pradarias. Nelas sinto-me livre e feliz.
Quando nos fixamos, ficamos pálidos e morremos. Pus de lado a minha lança, o arco e o escudo, mas sinto-me seguro junto deles.
Disse-lhes a verdade. Não tenho pequenas mentiras ocultas em mim, mas não sei como são os comissários. São tão francos como eu?
Há muito tempo, esta terra pertencia aos nossos antepassados. Mas, quando subo o rio, vejo acampamentos de soldados nas suas margens.
Esses soldados cortam a minha madeira, matam o meu búfalo e, quando vejo isso, o meu coração parece partir-se. Fico triste…
Será que o homem branco se tornou uma criança, que mata sem se importar, e não come o que matou? Quando os homens vermelhos matam a caça, é para que possam viver, e não morrer de fome.”
(Satanta, dos Kiowas)

“Quando a pradaria pega fogo, vêem-se os animais cercados pelo incêndio.
Vê-se que eles correm e que tentam esconder-se para não se queimarem.
É dessa maneira que estamos aqui.”
(Najinyanupi, dos Sioux)

“Se não fosse o massacre, haveria muito mais gente aqui neste momento. Mas, depois deste massacre, quem poderia ficar?
Quando fiz a paz com o tenente Whitman, o meu coração estava muito grande e feliz.
A gente de Tucson e de San Xavier deve ser louca. Agiram como se não tivessem cabeças nem corações. Devem ter sede do nosso sangue.
Essa gente de Tucson escreveu para os jornais e contou a sua história.
Os apaches não têm ninguém para contar a sua história.”
(Eskiminzin, dos Apaches Aravaipa)

“Esta guerra não nasceu aqui, na nossa terra. Esta guerra foi trazida até nós pelos filhos do Pai Grande, que vieram tomar a nossa terra sem perguntarem o preço, e que, aqui, fizeram muitas coisas más. O Pai Grande e os seus filhos culpam-nos por estes problemas…
A nossa vontade era viver aqui, na nossa terra, pacificamente, e fazer o possível pelo bem-estar e prosperidade do nosso povo. Mas o Pai Grande encheu-a de soldados que só pensavam na nossa morte.
Alguns do nosso povo que saíram daqui de maneira a poder mudar alguma coisa, e outros que foram para o norte caçar, foram atacados pelos soldados desta direcção e, quando chegaram ao norte, foram atacados pelos soldados do outro lado. E agora, que desejam voltar, os soldados interpõem-se para os impedir de regressar ao lar.
Parece-me que há um caminho melhor do que este. Quando os povos entram em choque, o melhor para ambos os lados é reunirem-se sem armas e conversar sobre isso, e encontrar algum modo pacífico de resolver.”
(Cauda Pintada, dos Sioux Brulés)

“Não queremos homens brancos aqui.
As Black Hills pertencem-nos.
Se os brancos tentarem tomá-las, lutaremos.”
[Tatanka Yotanka (Touro Sentado), dos Sioux]

“Onde estão hoje os pequot? Onde estão os narragansett, os moicanos, os pokanoket e muitas outras tribos outrora poderosas do nosso povo?
Desapareceram diante da avareza e da opressão do homem branco, como a neve diante de um sol de Verão.
Vamos deixar que nos destruam, por nossa vez, sem luta, renunciar às nossas casas, à nossa
terra dada pelo Grande Espírito, aos túmulos dos nossos mortos e a tudo o que nos é caro e sagrado?
Sei que vão gritar comigo: Nunca! Nunca!”
(Tecumseh, dos Shawnees)

(Continua)

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