domingo, 22 de julho de 2007

Papéis do Império Luso - Uma Caçada no Deserto de Moçâmedes (Angola) (1)

Na Câmara dos Arquivos Coloniais da Torre achou-se hoje um documento de 1928, redigido por Gastão de Sousa Dias, que nele relata uma surtida de caça ao deserto de Moçâmedes (hoje Namibe) .
Ele traça um retrato inspirado de uma realidade às vezes cruel, mas de uma beleza arrasadora, de um lugar do Sul de Angola que o Cavaleiro conhece bem.
Deixo-vos com o talento e a sensibilidade de um homem que, nascido em Portugal, se apaixonou irremediavelmente pela magia de Angola - à qual acabou por oferecer a sua vida.

NOS AREAIS DE MOÇÂMEDES (Parte I)

"Às quatro horas da manhã ainda a cidade está mergulhada no sono profundo. A sensação de que os passos ressoam mais alto do que é natural, e que de todos os lados o eco os reproduz, causa em nós um efeito estranho. Apenas a água do mar, a dois passos, vindo em onda suave desfazer-se na areia da praia, quebra ritmicamente o silêncio da noite. Para esse lado a negrura é espessa como tinta, prolongando-se as trevas indefinidamente pela superfície da água; mas a pequena distância, logo ali junto do Posto Meteorológico, as casas desenham-se claramente sob o brilho dos milhões de astros que coalham o céu. Que poeirada infinita de mundos, espalhada no firmamento! Lá está o Cruzeiro junto da mancha escura do Saco do Carvão...
Moçâmedes é uma cidadezinha gentil, muito semelhante a Espinho no alinhamento geométrico das suas casas, cortada por arruamentos perpendiculares. Entre o mar e as primeiras frontarias corre um jardim de grandes palmeiras e trepadeiras frondosas. A esta hora, enquanto os habitantes repousam, não sei que doçura especial há em espiar os silêncios da vida adormecida e os rugidos murmurosos do mar. Um galo cantou e, daí a minutos, essa voz, como que reflectida em todos os quintais, foi repetida por dezenas de gargantas. Ia romper a manhã.
Antes porém que o sol se corasse para os lados do deserto, já nós certamente iríamos a caminho dos areais. Na verdade, o motor de um carro ressoou e, dentro em pouco, avançando na escuridão, os seus faróis resplandecentes caminharam para nós. Andava recebendo os caçadores. Logo outro carro surgiu, depois outro, ao todo três automóveis e uma camionette para transporte da caça.
Marchamos na noite, sobre a estrada de Porto Aexandre. A terra despida, entrevista na escuridão, parece formada de cinzas esparsas, escórias de fornalha, onde nem as varas retorcidas dum arbusto crescem para o ar. Apenas, na faixa luminosa dos faróis, se distingue uma vegetação rasteira e torturada, a agarrar-se desesperadamente ao chão, como se cada planta necessitasse de raízes, ao longo de todo o seu corpo, para poder arrancar do solo a humidade precária que nele porventura ainda existe.
(...) Os carros avançam em fila. Só se distinguem as luzes dos faróis, que se deslocam em silêncio. Dir-se-ia que vamos para alguma empresa inconfessável, para alguma criminosa conjura. Esta sensação nasce da irrealidade da terra, da qual os olhos, já mais habituados à escuridão, adivinham a dura hostilidade. É uma paisagem trágica, por sobre a qual parece pousar um silêncio asfixiado de boca que quisesse gritar e se sentisse coagida por força misteriosa a abafar em rouquido a impulsão dos seus brados aflitos. Vamos calados. A estrada corta uma duna de areia em que a luz dos faróis lança reflexos espectrais e gera sombras movediças, de uma inverosimilhança de sonho. (...) Agora os carros, um a um, abandonaram a estrada e marcham alinhados em plena campina. É necessário que esta seja rasa como um salão, para que os carros, em velocidade regular, se aventurem afoitamente a percorrê-la. As luzes parecem deslizar imponderavelmente, navegando suspensas na mancha escura do deserto.
Somos ao todo uns vinte caçadores e nem uma palavra se aventura, todos dominados pela impressão estranha da ausência de vida, da escuridão, da planura rasa e negra sobre que voamos. Nem o vulto duma planta, nem o vulto duma pedra! Marchamos por sobre uma superfície absolutamente plana, onde há a certeza de não encontrar senão areia compacta e firme, numa extensão de que não saberíamos dizer a profundidade. A vida deve ter morrido neste areal desolado e, não obstante irmos todos levados pelo desígnio de caçar, no nosso espírito forma-se a incredulidade de que seja possível encontrar um único ser da criação. Devoramos quilómetros. Lentamente, timidamente, as primeiras claridades surgiram. Mas por enquanto era um alvor pálido, que mal iluminava as coisas, deixando apenas diferençar os vultos dos carros galgando a planura. Na nossa frente há claridades alaranjadas, linhas luminosas que se estiram ao longo do horizonte.
(...) Súbito, distinguimos na meia penumbra um vulto de animal, que negreja no fundo pardo da areia. Um carro desvia-se da marcha, outro segue-o. O animal, de que se divisa a cauda plumosa, percebendo que sobre ele caminham, começa a fugir. Mas não tem um arbusto sob que se esconder, um buraco para se ocultar. A única defesa por que a pobre raposa pode optar é a velocidade das suas pernas. Restabelecida a linha de carros, o animal, olhando à esquerda e à direita, galga quanto pode, obrigado a caminhar em frente pela extensão da linha que o ataca. Estão em luta a rijeza das suas canelas e a velocidade das máquinas de que o homem dispõe. É fácil prever quem vencerá.
Mas a raposa galopa numa correria doida. A sucessão das imagens dos seus membros é já vertiginosa. As pernas, no lançamento da fuga, parecem ultrapassar a cabeça. Deve ir quase extenuada. De quando em quando volta para trás a cabeça, raivosamente, como se quisesse morder os quatro monstros que ela decerto desconhece e que vão seguramente esmagá-la! Corre já sem esperança, enquanto o movimento envolvente das máquinas se desenha.
(...) Os carros estão ao alcance e de um deles parte o estalido seco de um tiro. A raposa embrulha-se na carreira, tenta arrastar os membros partidos, tomba, revolve-se de raiva, enquanto os monstros chegam implacáveis e ameaçadores (...)
Em marcha, em marcha! Os caçadores profissionais estão impacientes, que o dia clareia e para longe a caça é alentada e grossa... Não vale a pena perder nem tempo nem pólvora com raposas gaiteiras! Estão á nossa espera a bela cabra de leque, o galengue altaneiro, a zebra galopante. Vamos a andar, vamos a andar!
Nos poucos minutos que nos distraímos o deserto clareou e a iluminação do nascente avermelhou-se. Vamos ter um dia de fornalha, sem um abrigo, sem uma árvore para nos dar sombra (...) O sol começa a romper. É um globo enorme e reluzente que, segundo a segundo, avulta mais na linha do horizonte. À medida que ele surge, o céu vai-se tornando cor de chumbo e a terra aparece em toda a singularidade da sua planura, rasa, espalmada, unicamente vivificada por ervas miseráveis, dolorosamente adaptadas àquele meio de fogo, onde a água não tomba nunca. Em tempos remotos o mar devia ter coberto toda esta terra, que lentamente se foi levantando na sua aridez, tão grande que, passados séculos, a vida vegetal nela não vingou ainda.
(..) De um dos automóveis fazem sinal. Os carros entram em linha, seguindo a marcha do primeiro. Os olhos apuram-se. Efectivamente, à nossa frente, há vultos esbranquiçados que caminham. Mas, ao iniciarem a marcha, dão grandes saltos verticais, parecem mover-se em pulos sucessivos, para a seguir começarem a trotar de cabeça baixa, a rasar a terra! Que extraordinários seres, neste extraordinário panorama, de cuja realidade os nossos olhos ainda vão prontos a duvidar! Estaremos sobre a crosta da Terra, sonhando, ou andamos a caçar no planeta Marte?
Afinal, o que corre à nossa frente é um pequeno grupo de springbocks, a célebre cabra saltadora de Buffon, de que, pela desusada luz que nos alumia, apenas divisamos a parte do corpo cor de canela. Uma das cabras vai-se deixando ficar para trás. Um carro estaca. O chauffeur, velho atirador do deserto, está já de joelho em terra. Um tiro parte e o vulto da cabra tomba vagarosamente sobre o flanco, agitando as pernas no ar. Aproximamo-nos avidamente. Estamos em frente de um animal esbelto, o springbock dos caçadores do Cabo, cuja cabeça é armada de pequenos chifres anelados, em forma de lira, o ventre branco, as pernas altíssimas... A sua pelagem curta e macia cresce na parte posterior do dorso, numa prega aberta, disposição que dá ao animal o curioso nome de cabra de leque.
O caçador, examinando o animal, declara que não vale a pena levá-lo. Efectivamente, numa das pernas, de onde escorre um sangue purulento, a cabra tem um ferimento antigo. "Está cheia de febre, não presta para comer...". Em breve, atraídos pelo cheiro do sangue derramado, os abutres viriam das profundidades do deserto e, seguindo a direcção do seu voo, as raposas também, para caírem sobre o corpo ainda quente do pobre ruminante!
Neste deserto enorme a luta das espécies é formidável, e sobre as pobres cabras, mais tímidas e indefesas, os felinos e as grandes aves de presa, servidos por um faro maravilhoso, tombam implacavelmente. Há a acrescentar uma outra fera, a única que mata por prazer, só para interromper no seu movimento os seres que a Natureza animou de uma vida de formidável resistência (...)"
(Continua)
(Gastão de Sousa Dias - "África Portentosa" - Seara Nova - 1928 - Lisboa)
(Foto do deserto de Moçâmedes, ou Namibe - Okawa Ryuko)

1 comentário:

Okawa Ryuko disse...

Gostei de reler este trecho na net. A minha escola primária, no Lubango, tinha o nome do autor.