terça-feira, 24 de julho de 2007

O Retrato do rei D. João II de Portugal (por Oliveira Martins)


"Dizia o príncipe que tempos havia para usar de coruja, tempos para voar como falcão (...). Os tempos de coruja tinham acabado, porque não carecia mais de pactuar com as tontices do pai; rei agora (1481), seria o falcão. Mas, para ser verdadeiramente rei, teria de vestir ainda muitas vezes o hábito de ave nocturna, até ver por terra o poder dessa fidalguia que os erros do pai tinham ensoberbado.
Isto, porém, não satisfazia ainda as suas largas ambições. O homem, como Isabel de Castela o designava com espanto, mirava mais longe. A possibilidade de vir a sentar-se, ele ou os seus herdeiros, no trono de uma Espanha unida, afagara-lhe o espírito em moço, e chegou a esperar (antes de Toro) realizá-la. Depois, rechaçado, mas não desesperado, fez de coruja em 1479, contando voar de falcão no momento oportuno.
Nem paravam aí as suas ambições: lembrava-se do falecido infante D. Henrique, e dos vastos planos, abandonados, que tinham fervido naquele cérebro. A sua monarquia dilatava-se da Espanha à Índia: e com a Península da Europa, com a África, a Índia, o encantado reino do Preste João, sonhou a monarquia de Filipe II...
Era sóbrio, severo, detestava o luxo - que proibiu. A sua corte apresentava o que quer que fosse de fúnebre e austero, sempre agradável a portugueses. A sua figura, também, nada tinha de imponente, nem de graciosa. Os hábitos de coruja davam-lhe mais carácter do que os de falcão: às duas aves, porém, pedia a cor que punha em tudo, o negro. De maravilhoso engenho, subida agudeza, de memória viva e esperta, faltavam-lhe porém os dotes exteriores. Não tinha elegância, nem no corpo nem no dizer: arrastava as palavras, falava a custo e com uma voz fanhosa. Era alvo, mas com umas veias de sangue que o faziam ser muy temido.
Inspirava medo sem infundir amor. Aos 37 anos já tinha cãs na barba e nos cabelos; só nessa idade deixou de ser abstémio. A força muscular, dote necessário aos príncipes dos bons tempos, tornava-o célebre: cortava com um golpe de espada três e quatro tochas de cera reunidas. A natureza não o ajudava, decerto. E também, na sua educação de príncipe, deixava de obedecer à regra de Maquivel: Não é necessário ser-se dotado de todas as qualidades, mas é indispensável afectá-las; possuí-las e servir-se delas pode chegar a ser perigoso: fingi-las é sempre útil. Seja-se fiel, clemente, humano, religioso e íntegro; mas de modo que, senhor de si, se possa e saiba fazer todo o contrário, quando a isso o caso obrigue.
D. João não era, nem clemente, nem humano, e não julgava necessário ao seu papel fingi-lo. Isso fazia com que muitos o detestassem, o que era um mal, fazendo com que, se a maior parte o temia, ninguém o amasse, o que se tornava pior ainda. A perspicácia e a autoridade não eram nele bastantes para que soubesse envolvê-las numa simulada bonomia, porque doçura ou humanidade não as havia na sua alma. Não hesitava perante o assassinato, à italiana, mas tinha a fraqueza portuguesa de confessar como isso se praticava."
(Oliveira Martins - "História de Portugal" - Guimarães Editores - 17.ª Ed. - 1977)

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